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Harry Potter e as Relíquias da Morte- Parte II : Nobreza é boa, nem sempre é épica 18/07/2011

Posted by beaboo in Cinema.
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Hoje, finalmente, uma etapa de minha vida se encerrou. Fui assistir o último filme de Harry Potter, pelo menos o último por algum tempo, antes que J.K. comece a fazer o George Lucas e lançar um box especial por ano, cada um com a imagem ligeiramente melhorada e 10 segundos de cenas inéditas a mais.

Olha, nem vou ficar aqui narrando dos meus olhinhos brilhantes de criança a assistir ao primeiro filme, do carinho que tenho pelos livros que ganhava com tanta alegria, pela minha paixonite adolescente avassaladora por Rony Weasley/Rupert Grint (por quem minha atração segue inalterada até então, apenas em uma abordagem menos patética, mas se quiser ligar, tô aí)… porque né? Mas aquela coisa toda: sou fã, me afastei por uns tempos porque estava na fase “nerd elitista chata que só lê Tolkien para parecer mais inteligente para os menininhos do RPG”, voltei a curtir porque cresci e deixei de frescura, e estava aguardando ansiosamente o final para, finalmente, criticar bastante, comprar o box, criticar bastante o box e ir ler o universo expandido.

Mas falando do filme: eu gostei. Mesmo. Tenho uma crítica SÉRIA a fazer quanto ao desenvolvimento de um personagem no roteiro, mas o filme me sensibilizou bastante por razões que vou expor mais para frente. A partir daqui, só spoilers.

A crítica é: Alvo Dumbledore não apareceu como deveria. Na minha opinião, o encanto do personagem, que é ser um cara cheio de contradições e culpa debaixo do estereótipo bonachão de velhinho acolhedor, ficou totalmente sufocado pelo do medo do diretor em falhar ao expor o personagem e talvez torná-lo vilanesco para a parte do público que não leu o livro. O drama da morte de Ariana, a raiva e frustração do menino-prodígio que de repente se vê atado ao fardo da família que pode impedir suas ambições, a culpa e a determinação em combater ideias das quais ele esteve perigosamente próximo… nada disso aparece.

Mas o mais grave, grave porque não modificaria significativamente o filme e impede que um ponto muito importante da história seja compreendido, é a cena do diálogo entre Dumbledore e Harry, quando este está “morto” após se entregar voluntariamente a Voldemort.  Nem precisava muita coisa. Podia ser algo assim:

Harry: Ah, a propósito Dumbledore, eu morri?

Dumbledore: Ohhh, nãããooo, você sabe, aquela coisa de sacrifício, de como isso o protege, blá blá blá… cara, você leu as Crônicas de Nárnia né?

Harry: Ahhhhh claro. Entendi. Valeu Dumbledore.

Dumbledore: É nóis.

E pronto. Estava feito. Porque, sério, do jeito que ficou no filme, ninguém entende porque Harry não morreu, e fica achando que o Dumbledore é um velhinho troll que realmente preparou o menino como um porco para o abate, como acusa Snape.

Agora, a parte boa: acho que o maior mérito de Harry Potter é mostrar a nobreza dos personagens em uma situação extrema e terrível, mas sem exaltação. A mensagem é clara: somos heróis, mas odiamos que isso aqui tudo esteja acontecendo. Sério. Nós daríamos tudo para não estar.

O filme é denso, sombrio, sem respiro. Não tem alívio, nem mesmo nas esperadas cenas de beijo após filmes e filmes de enrolação. Tudo é teenebroso, todos estão apavorados, e os poucos momentos de animação são carregados de um humor negro fatalista.  As batalhas não são mostradas de forma gloriosa: é um caos absoluto, com crianças assustadas que se agarram à escola por ser a única referência que lhes restou. O herói não apresenta calma e frases de efeito: está apavorado, triste, desesperançoso. E mesmo quando a derrota do mal é completa, não existe júbilo: basta o castelo em ruínas, os sobreviventes algo apáticos e o chão forrado de mortos para entender que o que houve lá não será comemorado por ninguém. Não com a alegria de uma grande vitória. No máximo com o alívio algo entorpecido do despertar de um pesadelo.

O que me emocionou no filme foi que, ao meu ver, o diretor, negando o heróico e o épico em um acontecimento que, na verdade, é apenas trágico e lamentável, nos mostra o tempo todo a dor das pessoas comuns confrontadas com o horror da morte e da intolerância. Os vilões convictos, Voldemort e Bellatrix, parecem alucinados, anormais, ao aceitarem com alegria aquela realidade. Todos estão desconfortáveis. É perceptível que flertaram com ideias de superioridade por pura arrogância mas, diante do quadro real, só querem voltar para casa e serem ricos e esnobes em paz, vivos (ah que paralelo com tantos metidos a Bolsonaros por aí, amando o que nunca viram e estão gratos por não terem visto). A família Malfoy e sua fuga da batalha acaba se tornando não um símbolo de covardia, mas um desabafo da bondade inerente que eu, eterna otimista, acredito que todo ser humano tem. Não acho que todas as pessoas que fazem o mal são más. Muitas são perdidas. As que amam o mal, bem, quanto a essas não tenho dúvidas, e quero distância.

Mas o melhor momento é a despersonalização da figura do herói: Neville incentivando os amigos a enfrentarem Voldemort apesar da aparente morte de Harry é uma deliciosa desconstrução do clichê do escolhido. Não importa se Harry está vivo ou não: não se deve deixar de fazer o que é certo porque uma dita figura heróica morreu. As pessoas podem lutar por seus valores por si só. Não é preciso messianismo, só dignidade, amor, valores humanos. Qualquer um é capaz de defender o que ama.

E a grande conquista ao vencer o mal não é glória, fama, uma coroa, a liderança. É levar os filhos para a escola. O banal, o corriqueiro, essa é a glória de se viver. Esses jovens só queriam viver, se amar. Só. O que todos queremos. Não é épico. Mas é sublime. Confesso que chorei rios o filme todo.

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Comentários»

1. deborah - 18/07/2011

e sua crítica fez o filem ficar muito melhor.

beaboo - 18/07/2011

Obrigada ❤


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