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Dançar a música, dançar a vida 03/07/2011

Posted by beaboo in Fofuras cotidianas, Mundo cão, pessoal.
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Eu danço desde pequena. Posso listar três grandes razões para a constância desta atividade em minha vida.

A primeira, e mais óbvia, é que dançar é a profissão de minha mãe, e toda garotinha quer ser como sua mãe. E eu não seria diferente, ainda mais após anos assistindo, emocionada, minha mãe flutuando em suas sapatilhas, representando alguma sofrida princesa em seu lindo vestido. Afirmo com nenhuma sombra de dúvida que nenhuma menina desejou mais ser como sua mãe do que eu.

A segunda razão é que dançar é um desafio, e eu gosto de desafios. Sou competitiva por natureza, não com os outros, mas com meus próprios limites, e admiro grandemente a disciplina e o autocontrole, habilidades necessárias para uma bailarina. Dançar me dá prazer porque a lógica na dança é assustadoramente simples e justa: você se esforça, você evolui. Quem dera desse pra dançar a vida como se dança o minueto.

A terceira razão é a menos óbvia, mas talvez a mais profunda: dançar me ensina a levar a vida. Me ensina a admirar minha família e seus valores, me ensina a me esforçar pelo que quero. E me ensina o quê talvez seja a maior jornada e também a maior graça da minha vida: a ser um grupo. Ter parceiros. Dançar com outros.

Dançar é um trabalho de esforço individual sim. É você, um objetivo aparentemente impossível, e uma grande dor física no caminho. Leva um tempo pra vencer a dor, mas a maioria dos bailarinos que conheço não vêem grande dificuldade nesta etapa. O difícil é o que vem a seguir: vencer o orgulho.

Quando se dança em um grupo, não se pode pensar como indivíduo. Os movimentos devem ser executados por todos, iguaizinhos, ao mesmo tempo. Não adianta você chutar a perna na altura da orelha se seus companheiros não chutam. Não adianta você fazer o movimento 15 vezes mais rápido se seus companheiros não fazem, se seu coreógrafo não quer. Não existe espaço para o ego. É um trabalho de muitos. De confiança. Confiar que a piração do seu coreógrafo, que você não entende direito agora, vai ficar maravilhosa no palco. Confiar que seu parceiro não vai te deixar cair naquele levantamento complicado. Confiar que seus companheiros vão se movimentar com você, um corpo único, uma vontade única no palco, mesmo que a dor e o suor sejam exclusivos de cada um. Confiar na música. Confiar no público. E se expor, sem medo.

Com o tempo, você começa a sentir a unidade. Tem que sentir, não dá para aprender. Você e seu grupo respiram juntos, ofegam no mesmo trecho, movem cada músculo no mesmo compasso. Basta olhar com o canto do olho, e o movimento de quem está ao seu lado é imediatamente entendido. É louco. É como um déjà vu.

E na vida, quando a parceria dá certo, é assim. Funciona naquela música, naquele tempo. Pode acontecer de, de repente, os movimentos ficarem mais pesados. Você começa a duvidar do seu rumo. A coreografia parece não fazer mais sentido. E naquela olhada de canto de olho, você percebe que quem dança ao seu lado parece dançar sozinho. Você não compreende o próximo movimento.

Aí é mudar de palco, mudar de coreógrafo, de parceiro, de música. Porque a dor sempre será só sua, e se seu grupo não estiver dividindo sequer o ônus de construir a obra em unidade com você, não adianta, aquela mensagem já não lhe significa nada. No começo bate uma frustração. Mas quando você respira fundo, e encontra seu lugar… a nova coreografia está linda, a nova música faz sentido. Seus membros estão leves, seus parceiros lhe seguram com força e, naquela olhada de canto de olho, você vê todo mundo executando em uníssono, cada parte da sua vida trabalhando para criar beleza e significado. O esforço persiste, mas não importa, a dança está correta novamente, ele é só a ferramenta, só a lembrança de que a sua mente é também corpo ao qual ela não sobrevive, e que o sublime é juntar os dois no enorme prazer de dançar algo que valha a pena ser visto. O corpo ofega, a mente acalma. E tudo está no lugar novamente.

No êxtase, nem dá para ouvir os aplausos. A gente nem lembra disso.

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